terça-feira, 20 de novembro de 2018

A VOZ DO MEU SILÊNCIO

FRAGMENTOS DO PASSADO PRESENTE

A VOZ DO MEU SILÊNCIO

Porque serei tão calado? Quanto mais falam aqueles que me rodeiam, menos vontade tenho de dizer alguma coisa. Talvez seja este o significado destes rascunhos que retomei ao fim de alguns anos. Dizer alguma coisa. Não sei com quem falar acerca da Luísa. Às vezes penso que a Maria, o João, o José, compreenderiam, mas estas pessoas tem mais que fazer. A Cláudia está bem. Esforça-se por acompanhar-me e não quero magoá-la. É verdade que não falo muito com ela. O meu corpo fala com o seu e talvez isso seja suficiente. Será? Confesso que me mantém vivo, me desentedia o tédio. Nem sequer lhe disse que a sua barriga é uma delícia. Hei-de dizer-lhe. Prometo. Ela também não é muito faladora. Afinal de contas, para quê falar quando fazemos amor? Com a Luísa a festa era outra. Para começar, era festa. Ela não só tinha prazer como se divertia. O nosso acto era alegre. Não faz mal rir em pleno orgasmo. Sinto muita falta da festa. Aí reside o segredo. A Luísa não era calada, e eu também não o era nos tempos da Luísa. Provocava-me com perguntas. Fazia-me pensar. A Cláudia, pelo contrário, quando fala dá logo as respostas. Respostas a perguntas que eu não formulei. A Luísa era insegura. A Cláudia é seguríssima. Eu estava seguro da minha insegurança. Que confusão. Hoje estive a fazer contas sexuais. A verdade é que passei por poucas mulheres. Por fidelidade? Por preguiça? Não sei. Só contei oito. Nos meus sessenta e cinco anos não é propriamente um recorde para o Guinness. Das outras, quero dizer, das ilegais, cinco foram apenas breves escalas. Não me deixaram marca. A que me deixou alguma coisa foi aquela Aline. Talvez eu não tenha sabido mantê-la. Das outras lembro-me dos seios, do sexo, das pernas. Da Aline, lembro-me dos seus olhos. Mais do que dos seus olhos, do seu olhar. Olhava-me como se quisesse dizer alguma coisa sem dizer. Nunca a vi chorar. Às vezes dizia-lhe coisas duras, a roçar o ofensivo, para ver se chorava. Mas ela só me olhava profundamente, mas sem lágrimas. Terei alguma vez sido feliz? Antes da Luísa perdi a Aline. A pobre Luísa apagou-se sozinha. E agora existe a Cláudia, que sabe acompanhar-me. A dúvida é se seremos um casal. Acho que sim, mas não deveria duvidar. Parece-me. Porque terei mudado de casa tantas vezes? Passei por mais casas que por mulheres. Escrevo estes rascunhos aqui sentado junto ao mar. Não são para ninguém, nem sequer para mim. Não me são indispensáveis. Poderia viver sem os escrever. Na verdade isto não é escrever. É apenas dizer alguma coisa num papel (rede social). Tive o melhor emprego que desejei. Só pelo previlégio de lutar pela liberdade e democracia universais. Dou-me bem com todas as pessoas. Normalmente dou-me melhor com quem me é afastado do que com quem me é próximo. Uma onda graciosa espraia-se em rendilhada espuma branca, vestindo as pedras negras. Que elegância. Acompanha-me bem como a Cláudia. Um galo canta longíssimo e depois outro, mais perto. Muitas vezes tenho vontade de responder-lhes. Mas só sei emitir cacarejos humanos, não sei cantar como o galo. Victor Jorge

O MEU PRIMEIRO CONTO

FRAGMENTOS DO PASSADO PRESENTE

O MEU PRIMEIRO CONTO (1973)

Frequentava na época a residência de um casal de professores universitários, que me recebiam e acarinhavam como se fosse membro da família. Um dia tomei de assalto a minha coragem, tirei do bolso duas folhas de papel manuscritas, e disse: escrevi um conto. Justifiquei.
É um pequeno conto não sei se presta. Talvez seja fruto das minhas fadigas e desencontros religiosos. Tossi suavemente para aclarar a voz, e iniciei a leitura do meu conto.

"Um santo milagreiro. Era isso que ele era. As beatas da aldeia juravam que o tinham visto suar, sangrar e chorar. Na vila próxima, uma agência turística organizava excursões para mostrar o Santo. Para uns tratava-se de São Miguel; para outros, de São Domingos ou de São Bartolomeu, e não faltou quem afirmasse que se tratava de um São Sebastião, um pouco estranho, já que lhe faltavam as setas. E como a própria Igreja não chegava a um acordo, a paróquia decidiu chamar-lhe O Santo e mais nada. Fosse o que fosse, o pároco estava encantado com a inundação de esmolas. Adélia não veio em excursão. Ela e os seus pais viviam desde sempre na aldeia, o que significava que conhecia o Santo desde criança.
A sua imagem tinha estado presente desde os seus primeiros sonhos infantis. Agora tinha dezassete anos e era a rapariga mais bonita em várias léguas das redondezas. Também o Santo era bem-posto e quando Adélia ia à capela e se ajoelhava diante do altarzinho lateral onde o Santo morava, a sua devoção tinha traços subtis de amor humano. Numa manhã de segunda-feira quando o templo estava deserto, a rapariga aproximou-se do Santo, olhou-o demoradamente e desta vez o seu suspiro foi profundo. Depois aproximou-se e começou a beijar minuciosamente aqueles sólidos pés de gesso. Depois acompanhou os seus beijos com carícias nas pernas descascadas.
De repente, sentiu que alguma coisa lhe molhava o braço. Ao princípio não queria acreditar, mas era verdade. Um milagre inédito, afinal. Porque aquilo não era choro nem sangue nem suor. Era outra coisa."

Que acha? Perguntei em profundo suspense à insigne  professora.
Não sei. Fiquei um pouco confusa. Tenho a impressão de que decorre numa linha de fronteira. Mas é uma fronteira que não costuma surgir na literatura: é a que separa a religião do erotismo.
Levantando as sobrancelhas, inquiriu o marido sobre a sua opinião.
Eu gostei, talvez precisamente por se passar nessa fronteira. O Santo humaniza-se. Nessa última linha deixa de ser gesso para ser carne. Então o que dizer ao Victor?
Então, isso mesmo.

Victor Jorge

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

PRETÉRITO IMPERFEITO

PRETÉRITO IMPERFEITO

Peguei a cadeira de baloiço, pu-la em frente à janela e ali fiquei sentado umas duas horas. Só. Em silêncio. Sem o ter especialmente premeditado, e com uma inesperada capacidade para manejar o meu próprio caos, comecei a peneirar o meu pretérito imperfeito, isto é, o meu passado não perfeito, rudimentar, indeciso, deficitário, trapalhão, destorcido, vulnerável, quebradiço, negligente, etc. O que tinha eu feito até agora? O mundo consome-se e despedaça-se em guerras estúpidas. Milhões de mortos, e eu, que faço? Que faço nesta cadeira de baloiço a contemplar a desolação? Sou um exilado da minha vida passada. Chego a pensar que contas feitas a consciência é simultaneamente o nosso céu e o nosso inferno. O famoso juízo final somos nós que o fazemos, dentro do peito. Todas as noites, sem termos consciência disso, enfrentamos um juízo final. E é conforme a sua sentença que conseguimos dormir descançados ou rebolamos em pesadelos. Nem Salomão, nem psicanalista. Somos juiz e réu, acusação e defesa, que remédio?! Se nós mesmos não sabemos condenar-nos ou absolver-nos, quem poderá fazê-lo? Quem tem tantos e tão recônditos elementos de juízo sobre nós mesmos como nós mesmos? Não saberemos, desde o início e sem a menor hesitação, quando somos culpados e quando somos inocentes? O que, ou quem não estará ameaçado neste contexto e nesta época? Vive-se e sempre, se viveu sob ameaça. A morte está dentro da vida, alguém disse. É verdade: a morte está dentro da vida. Mas podemos mandá-la de férias, não? Trabalha tanto que bem as merece. E não sintamos a sua falta, porque de qualquer forma voltará, e quando voltar tocar-nos-á no ombro. Mesmo dos milhares "imortais".

Vitor Jorge

Comentarios: Maria Kurtenbach - A tua escrita tao triste quanto poetica..Uma mistura de desistencia e esperanca. Uma porta aberta a todos quantos lutam na vida e sao esquecidos e injusticados juntamente com a inexoravel verdade da vida e da morte..  Como diria Camoes ,um contentamento descontente. Puseste-me triste e ao mesmo tempo deste-me esperanca. Escreve mais!

José Cipriano Catarino- Gostei muito. A condição humana tão bem retratada. Abraço

sábado, 10 de novembro de 2018

CONSIDERANDO

CONSIDERANDO

Não sei porque razão a bomba de Nagasaki me afectou mais do que a de Hiroshima. Talvez porque representou não só o horror mas também a sua continuidade. Expecificou-se a potência do engenho foi de 12,5   Kilotoneladas, acrescentando que uma kilotonelada equivale a mil toneladas de TNT. Hoje compreendo a sua verdadeira dimensão aterradora. Ora bem, como aqueles que lançaram a bomba não foram alemães, nem franceses, nem russos, mas sim norte-americanos, muitos historiadores festejaram o acontecimento enaltecendo os formidáveis avanços das técnicas bélicas das forças "democráticas" . Por outro lado, as centenas de milhares de vítimas não eram branquinhas mas sim amareladas, pelo que também não houve grande motivo de preocupação.
A mim, tudo aquilo me pareceu um horror. Nunca consegui perceber como é que as pessoas oscilaram de forma tão irresponsável entre a indignação e o regozijo. Prognosticou-se que com isto a guerra iria acabar e disseram-no com enorme júbilo, como se até ao dia anterior tivesse-mos sido todos as vítimas diárias dos bombardeamentos. Não é que eu tenha especial empatia pelos japoneses, mas pareceu-me sempre uma atrocidade que milhares de civis morressem calcinados. Com que rapidez os norte-americanos aprenderam com os nazis o sistema dos fornos crematórios! De Auschwitz a Hiroshima, sem escalas. Alguém escreveu: "com esta acção evitaram-se milhares de outras mortes". Estive prestes a cair no pecado colateral: odiar o ódio.
O progresso global desde então estabeleceu novas regras. Bombas H com um poder de destruição inimaginável: os ditadores. É como se alguém me disse-se "vocês também vão sucumbir, na verdade já estamos a sucumbir, só que são outras as bombas que vos calcinam".  Diáriamente aumenta o número assustador de Kilotoneladas desta perfídia com que se entende a total aniquilação planetária. Que humanidade é esta que se delicia a enaltecer tamanha barbárie? Que é feito dos dignos, dos indignados sem manifesto reduzidos a  um identikit tecnologicamente perfeito, tão perfeito de silêncios  que nem a morte despertará. Más vale bueno conocido que malo por conocer. Hoje entendo a dimensão desta frase que escutei em terras de nuestos hermanos. Sempre a tomei por lugar comum, sem sentido ou lógica, saída da boca de anónimos de taberna. Parece que o silêncio, o terrível silêncio, calou os grandes escritores e pensadores actuais, salvo uma ou outra situação pontual, um dever de cidadania de quem imprime nos seus livros e escritos bons ideais que de alguma forma servem de tampão ao desenvolvimento das mentalidades ditas modernas fábricas do horror das  quais somos operários, vítimas passivas sem norte. Bem hajam todos aqueles que se indignam e se manifestam com eterna e acertiva convicção, em prol da paz, liberdade, e democracia humanizadas.

Vitor Jorge

Comentário de Luis Fernandes do Canadá

Finalmente Vitor Jorge. Estava a faltar a eloquência. Oxalá venha recuperado de verdade pois a batalha vai ser duradoura e sangrenta. Os portugueses precisam dos seus escritos como de pão para a boca. Saramago açoriano como já alguém lhe chama. Vamos ter mais um Nobel. Chama-se Vitor Jorge e vive na república do Faial. Wellcome back Vitor. We missed you and what you write. Keep telling us what we are missing because they hide from the people and we deserve to know. The world have no more space for lies and you have a mission. I wish you a good health and we are waiting for your books. All the best.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

MADE IN AZORES

MADE IN AZORES

A indústria e consumo de produtos made in Azores, padece de doença crónica, desde sempre, motivada pelo fraco índice de productividade uniforme, concentrada práticamente numa única ilha, não fomenta o emprego indispensável ao progresso das nove ilhas que compõe o Arquipélago pseudo Autónomo Açoriano. As sucessivas falências das Conserveiras, da Sinaga, da Sata "Air Azores", mil toneladas de queijo sem comprador, etc etc. As aberrantes andanças a que se conduz a Universidade de Biologia Marinha instalada nesta cidade da Horta, não constituem bons auspícios para o povo destas ilhas, dependente destas já de si miseráveis valias de subsistência precária. "De onde se retira e não põe, míngua e não cresce" reza o provérbio popular.
A divulgação em feiras da especialidade a nível nacional e internacional de produtos Açorianos, tem vindo a ganhar uma aceitação de parâmetros razoáveis dentro daquilo que por cá se fabrica e confecciona, tipo caseiro, de precária e duvidosa sustentabilidade comercial.
Destaque para alguns vinhos considerados e reconhecidos como de altíssima qualidade a nível mundial, licores, bebidas espirituosas,  conservas e derivados de atum, lacticínios, destaque para alguns tipos de queijos premiados pela qualidade, e muito pouco daquilo que se entende como o melhor entre os melhores.
Generalizar tudo o que se produz com a marca Açores como qualidade inigualável, é um erro grosseiro, tendencioso, e desprestigiante. Há que assumir as nossas limitações, distinguir o que oferece qualidade daquilo que é escassa quantidade.  Sejamos honestos e realistas, o consumo de géneros alimentares produzidos nos Açores e comercializados internamente salda-se por insignificante, em causa estão a  qualidade mediana a preços incompatíveis naquilo que se apresenta como um tradicionalismo estático, comodista, e obsoleto, comprometedor de um desenvolvimento eficaz.    Produzir sempre mais elegendo a diferença pela qualidade constitui o segredo do êxito dos nossos produtos afim de motivar o seu consumo privilegiando pela justa alternativa qualitativa interna ou externa, com alguns adeptos da inteligência, mal apoiados ao promover a diferença daquilo que é genuinamente bom.
Possuímos boa matéria prima natural, de lamentar a escassa produção com qualidade minimamente exigível, que nunca constituirá uma mais valia de referência económica autónoma no progresso ilhéu, nos moldes em que se processa actualmente.
Esquece-se a feroz concorrência, e as suas consequências no consumo, limitado pelo instável poder de compra da população, assim, considere-se que uma conserveira Espanhola coloque no nosso mercado uma embalagem de conserva de atum por preço mais acessível, e igual qualidade, da que se fabrica por cá, em matéria conserveira a produção foi restrita em exclusivo ao atum, enquanto poderia ser aproveitada com outras espécies de pescado  como o chicharro e a cavala, é disso exemplo a fabrica Maná no Algarve que produz este tipo de conservas de altíssima qualidade com mercado e preço garantidos. Por cá, há longos anos a Cofaco investiu na conserva do chicharro, os afamados "Bembelos" extintos poucos anos volvidos quando a procura era assegurada e rentável internamente, prova inequívoca que aos industriais Açorianos interessa o lucro fácil e descontextualizado. Os hambúrgueres de chicharro e cavala capturados no Continente fazem as delícias de estrangeiros e nacionais, valorizando espécies pouco rentáveis comercialmente num producto criativo apetecível, saudável, e de rentabilidade assegurada.
Porque razão "o Açoriano patriota" consumidor que conta os tostões da sobrevivência, será motivado a gastar o que não possui num artigo Açoriano, por mera carolice egocêntrica?!
De igual forma é minimamente bizarro que se pretenda obrigar um turista a consumir cerveja Açoriana "Especial" quando o mesmo dá preferência a uma Sagres ou Heineken. Nas prateleiras das grandes superfícies comerciais, mercearias, hotelaria etc. estão bem visíveis os produtos Açorianos e Nacionais, observe-se as preferências, exemplo: perante um leite achocolatado de fabrico Nacional e um local, o consumidor prefere por maioria o Nacional, o mesmo sucede com a cerveja, e uma maioria de outros produtos. Porque será ?! A resposta é por demais objectiva no consenso comum.
É patética a fobia com que muitos apologistas ao consumo de produtos Açorianos, caso de muitos imigrantes, que tecem comentários nas redes sociais acerca das  saudades e vantagens do consumo dos mesmos, empanturrados de farta comezaina internacional regada a barris de Budweiser só porque lhes lava a alma e os sentidos. Produtos Açorianos?!... Bem, só nas férias de anos a anos e a contra gosto, porque o que lá consomem é           melhor porque "defrente," (leia-se diferente) o mesmo se aplica, porque visível, aos frenéticos "publicitários"  locais intrínsecos consumidores do made in Azores, no facebook, na realidade, a "enfardar" produtos Nacionais.
As "saudades" dos arrotos da laranjada, e outros refrigerantes típicos não vão além de uma farsa facebookiana também ela exibicionista, provocadora de azias e destemperos silenciados no vómito diarreico a solo. A aposta no fabrico de produtos naturais, faria a diferença, que se apresenta desinteressante nesta, e outras áreas de consumo.
Desejo ardentemente o desenvolvimento e progresso Açoriano, também sou um deles, com uma pequena mas fundamentada diferença, sou autêntico e inconvenientemente realista.
Tenha-se paciência, alguém aqui não faz parte deste filme irreal satírico, e pusilâmine.
Se a solução para o consumo do made in Azores passa indubitavelmente pelos exageros desconexos e exacerbados, que se afoguem os turistas que nos visitam em tanques de cerveja "Especial",  na gastronomia, que os empanturrem pela força bruta, com o cozido das Furnas, e creme de malagueta "puta" para barrar ao pequeno almoço, regado da "famosa laranjada".
Já que navegamos em marés de proibições, que se proíba o livre consumo interno restringido ao made in Azores, e teremos criada a maior democracia ditatorial independentista da Macaronésia.

Vitor Jorge