sexta-feira, 13 de março de 2015

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção     
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?    
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria                      
Quanto ao pão,ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento    
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:    
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.    
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa -   
Garrafa, prato,facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.    
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão  
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento   
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!   
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo  
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão  
Desse instante solitário
Que, tal sua construção   
Cresceu também o operário.   
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia -  
Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim  
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos  
Eram as rodas do patrão        
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação   
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria  
Nenhuma preocupação    
"Convençam-no" do contrário                  
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.        
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram  
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento  
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.  
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo  
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário  
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue     
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.  
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais,se abandonares
O que te faz dizer não
Disse,e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não! - 
Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu? -   
Mentira ! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se   
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado         
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição                
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz           
De todos os seus irmãos que  
morreram                                     
Por outros que viverão              

Uma esperança sincera  
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa  
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Vinicius de Moraes

F

F

quarta-feira, 11 de março de 2015

O poeta e a lua

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela Rua
Seus olhos verdes de éter Abrem cavernas na lua
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, alocado e branco Palpa as nadegas da lua
Entre as esferas nitentes Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente Entreabre o pente da lua
Em frouxos de luz e água Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De polidez e doçura
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo Aguça as pontas da lua
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua
O orgasmo desce do espaço Desfeito em estrelas e nuvens Nos ventos do mar perpassa Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua ...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas Enquanto a noite enlouquece No seu claustro de ciúmes

(Vinicius de Moraes ) Copy Vítor Jorge

Algumas perguntas a um "homem bom"

Algumas perguntas a um "homem bom" Bom, mas para que? Sim, não és venal, mas o ralo que sobre a casa sai também Não é venal. Nunca renegas o que disseste. Mas, o que disseste? És de boa fé, dás a tua opinião. Que opinião? Toma coragem contra quem? És cheio de sabedoria Pra quem? Não olhas aos teus interesses. Aos de quem olhas? És um bom amigo. Sê-lo-ás do bom povo? Escuta pois: nós sabemos que és nosso inimigo. Por isso vamos Encostar-te a paredão. Mas em consideração dos teus méritos e das tuas boas qualidades Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com Uma boa pá debaixo de terra boa.

REMENDO DO CASACO

"Sempre que o nosso casaco se rasga vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser; isso vai acabar, custe o que custar! Cheios de fé vão aos senhores enquanto nós, cheios de frio, aguardamos. E ao voltar, sempre triunfantes, nos mostram o que por nós conquistam: Um pequeno remendo. Ótimo, eis o remendo. Mas onde está o nosso casaco? Sempre que nós gritamos de fome vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar, é preciso ajudá-los, custe o que custar! E cheios de ardor vão aos senhores enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos. E ao voltar, sempre triunfantes, exibem a grande conquista: um pedacinho de pão. Que bom, este é o pedaço de pão, mas onde está o pão? Não precisamos só do remendo, precisamos o casaco inteiro. Não precisamos de pedaços de pão, precisamos de pão verdadeiro. Não precisamos só do emprego, toda a fábrica precisamos. E mais o carvão. E mais as minas. O povo no poder. É disso que precisamos. Que tem vocês a nos dar? "

terça-feira, 10 de março de 2015

NÃO MUDO

Não mudo !
nem tampouco surdo mudo! Bradam vozes de gúrus, mudem as suas mentes ou jamais mudará nada !
Eu não mudo !
Não me assistem razões, mas certezas !
Tenho direito à diferença!
Serei o eterno incompreendido, pelos que não mudam nada, acomodados no status quo do gelo humanóide!
Não mudo !
Sou parte integrante da natureza, minha mãe, minha querida e doce mãe!
Não mudo o mundo,meu lar! Não mudo nada, definitivamente nada !
Não mudes , aconselha o meu amigo Tobias , sábio natural de valores !
Não mudo !
Que mude a perfídia humana!

vitor jorge

terça-feira, 3 de março de 2015

Tudo é possível em Portugal

Ex-agente da PJ e antigo dirigente do Sporting estará envolvido em crimes violentos. Paulo Pereira Cristóvão NUNO FERREIRA SANTOS  2 O ex-agente da Polícia Judiciária (PJ) e antigo vice-presidente do Sporting Paulo Pereira Cristóvão foi detido nesta terça-feira pela PJ. A notícia foi avançada pelo Correio da Manhã e confirmada pelo PÚBLICO. Pereira Cristóvão estará ligado a assaltos à mão armada, sequestros e associação criminosa. Paulo Pereira Cristovão foi detido no âmbito de uma investigação que em Julho do ano passado levou à detenção de 12 pessoas por sequestro, roubo e usurpação de funções. O grupo, que integrava três agentes da PSP, foi desmantelado por elementos da Unidade Nacional Contra o Terrorismo da PJ, indiciados por associação criminosa, sequestro, roubo qualificado, usurpação de funções, abuso de poderes e posse de armas proibidas. Pereira Cristóvão sinalizaria as vítimas e fornecia informação à associação criminosa a que pertencia, sendo um dos mentores dos roubos e sequestros perpetrados pelo grupo. A PJ emitiu um comunicado, a revelar que, através da Unidade Nacional Contra Terrorismo (UNCT), em inquérito titulado pelo DCIAP, deteve três homens, com idades compreendidas entre os 37 e os 49 anos, presumíveis autores da prática dos crimes de associação criminosa, sequestro, roubo qualificado, usurpação de funções, abuso de poderes e detenção de armas proibidas. “Os agora detidos, juntamento com outros doze suspeitos, estes já detidos em meados do ano passado, alguns deles pertencentes a uma força de segurança, integravam uma organização criminosa dedicada ao roubo no interior de residências, que simulavam tratar-se de verdadeiras acções policiais para cumprimento de buscas domiciliárias judicialmente ordenadas, tendo mesmo, nalguns casos, utilizado as suas próprias fardas para assim melhor credibilizarem as suas acções”, revela a nota. Os crimes investigados ocorreram nos distritos de Lisboa e Setúbal, cabendo aos agora detidos a sinalização de potenciais vítimas dos roubos a cometer. No decurso da operação policial foram cumpridas oito buscas domiciliárias e não domiciliárias, tendo sido apreendidos relevantes elementos de prova. Pereira Cristóvão foi vice-presidente do Sporting no mandato de Godinho Lopes, depois de ter sido candidato a presidente do clube.

segunda-feira, 2 de março de 2015

VALHA-NOS NOSSA SENHORA DO LORETO

... e os voos da verde rubra transportadora Nacional TAP, estão a chegar ao fim, pelo menos para as Ilhas do Pico e Faial ! Após três décadas de serviços, bem ou mal prestados nestas duas Ilhas, fartou-se, e fartou muita gente, especialmente os adeptos fervorosos da concorrente Açoreana SATA em especial emigrantes Açoreanos que preferem a pressurização interna num ambiente perfumado a morcela com batata doce, do que a concorrente TAP com um ambiente pobre de pescada com grelos! É apenas e tão só a diferença já que as "viaturas" são iguaizinhas mais A menos Y ! A partir do final do mês de Março de 2015 , regredimos trinta anos de conquistas e vilanias, e entramos na velha era da camioneta Horta Terceira, Pico Terceira, Horta S.Miguel,Pico S.Miguel e vice versa, com apenas duas diferenças de peso, o monopólio dos transportes aéreos Pico e Horta ,e as camionetas já não são Avros mas sim Bombardier, é outra loiça, "tã riquinhes queles sã" !
As manifestações partidárias acerca desta falha gravíssima que vem afectar turistica e comercialmente estas duas Ilhas e os seus habitantes limitaram-se à simples discordância da praxe,como se essa atitude servisse para algo producente!
Sem querer fazer futurologia, ainda com a situação que se avizinha, tudo em polvorosa , um inferno de Dante ao vivo e a azul e branco devotado onde haverá choro e ranger de dentes (se sobrar algum ) ! Vejamos bem, pelos olhos do presidente do governo regional dos Açores e do primeiro-ministro português : nem aeroporto temos,quando muito, um apeadeiro aéreo, na Ilha do Faial, no Pico uma pista de patinagem no meio dos maroiços! Viva S. Miguel e Terceira ,equipados com pistas rodeadas de "arranha céus " que  "enchem o olho" e os bolsos dos mesmos divisionistas de sempre ! Já agora, que regresse a FLA e consolide a independência dos Açores nestas duas Ilhas únicas, porque as restantes sete nunca passaram de "calhaus " que flutuam ao sabor da vilanagem e da conveniência Micaelense !
A SATA é uma mini companhia aérea incapaz de prestar um serviço aéreo público com a dignidade que todos,mas todos os Açoreanos merecem por direito! Viagens directas para Lisboa a partir do Pico ou do Faial passaram a ser um sonho, as probabilidades são de camioneta até há Terceira ou S.Miguel e o respectivo transbordo com ligação a Lisboa método utilizado durante anos anteriormente e "comodamente" !
Aos "satistas" dou os meus parabéns, enfim sós !
Adeus à TAP que deixa de         " perturbar " por estas bandas de porões recheados com a tão apregoada e desejada unidade Açoreana e a sua dúbia prosperidade igualitária  !
Valha-nos Nossa Senhora do Loreto padroeira da aviação comercial !

(Texto de opinião pessoal e colectivo protegido por copyright)
O autor não utiliza o acordo ortográfico
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