quarta-feira, 6 de março de 2019

OS BARBAROS E O PROGRESSO

Os Bárbaros e o progresso

Numa Ilha de
173, 1 km quadrados de superfície rodeada de mar por todos os lados, cerca de 15 000 pessoas habitam esta nesga de terra, com sérias tendências de redução de áreas onde os seus habitantes tenham pleno direito à lógica do livre acesso e usufruto do território que é propriedade dos seus habitantes que pagam alto preço por esse benefício: viver numa ilha, é sonho, poesia, romance, assente sobre a natureza num harmonioso contraste terra - mar desde os primórdios, as nossas gentes sempre labutaram o seu sustento nestas duas áreas naturais, sem constar empírica ou cientificamente qualquer tipo de delapitação da sua fauna e flora ambientais  quer em terra quer no mar. Provas disso: caçaram-se cachalotes, golfinhos, pescaram-se atuns e todas as variedades de peixes consumíveis na alimentação, caçaram-se cagarras para engodo e isco; nenhuma destas espécies esteve alguma vez posta em causa de extermínio, idem para as aves migratórias que jamais nos abandonaram. Os consumos foram sempre metódicos e coerentes durante muitos séculos e outras tantas gerações que sobreviveram em consonância responsável  com o ambiente; face há actualidade somos forçados a atribuirmo-nos uma classificação indigna de bárbaros. As circunstâncias políticas em que o país viveu não promoveu o desenvolvimento e por conseguinte o progresso necessário. A adesão à União Europeia foi o primeiro passo para uma política vocacionada ao progresso que se supôs igualitário quase "milagroso", porém a realidade nostálgica e ignota esfumou-se nos subsídios para não se produzir ou fazê-lo sob tabelas impostas pela mesma União cuja finalidade e objectivos só agora tem visibilidade negativa, na corrupção e interesses dos grandes banqueiros. Eis que entramos na "era do progresso em alta escala de abundância" do salve-se quem poder e da anarquia de gestões ruinosas dos nossos recursos ilhéus imparáveis, a tão apregoada autonomia e unidade Açoriana nunca existiu, a capital continua sediada em São Miguel apesar dos esforços de manobras de diversão conseguidas e continuadas na submissão estagnada e estupidificante deste povo que persiste em ser espoliado na constante degradação do seu modus vivendi: a pobreza explodiu, dando lugar à anarquia, vale tudo para sobreviver, idealizam-se proibições, interdições sem sentido, que incitam à contrafação e ao descalabro total dispensável. As nossas riquezas marinhas estão reduzidas a quase zero, o pescado eleva-se a preços exorbitantes bem como a carne, proibitivos ao consumidor sem poder de compra, enquanto isso, nenhum pescador vai além da miséria, nem os productores de carne saem da cepa torta. Em agonia aposta-se na venda de um destino turístico em que lucram os mesmos de sempre (São Miguel) as restantes ilhas ficarão à mercê das migalhas e do turista falido.
A persistente e constante gestão ruinosa de todos os governos pós autonomia são a causa que culmina com a actuação do governo actual visivelmente incapacitado de ter uma atitude progressista igualitária e libertadora para com este povo que cumpre com os seus impostos na cega espectactiva sebastianista de que surgindo das brumas haverá uma divindade que lhes valha, na imprevisibilidade dos tempos.

Vitor Jorge
06/03/2016

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

UMA ANTIGA NOVA

UMA ANTIGA NOVA

Os nossos corpos, felizes e agradecidos, jaziam imóveis após a união repetida e profunda. A respiração coordenada transmitia uma dupla sensação de plenitude. Só as mãos se procuraram. Já não buscavam as zonas erógenas, que tanto prazer tinham celebrado. Era o momento do sossego, da serenidade.
A Lídia disse:
- Devo ser antiga.
A minha mão moveu-se, interrogativa.
- Sim, devo ser antiga porque no sexo não quero experiências, vanguardismos, posições insólitas, extravagâncias, aberrações. Para mim não há nada mais bonito do que ter-te dentro de mim e que aí trabalhes, osciles, derrames. Devo ser antiga, não achas?
Continuei a olhar para uma mancha de humidade que sempre me fascinou, mas afirmei:
- Gosto das antigas.
- No plural? - perguntou ela.
- Não, no singular. Gosto da Lídia, a antiga mais nova que conheço.
- E tu o que és?
- Eu sou uma velharia.
Na rua soou a sirene de uma ambulância. Ficámos em silêncio até que o alarido se dissolveu na distância.
- Sabes o que a Alzira me perguntou há uns tempos? Que se nos dávamos tão bem como parecia, porque é que não casávamos.
- É um pouco metediça essa senhora, não achas?
- Foi o que eu achei, mas não lhe disse, claro. Ela percebeu que a pergunta me tinha caído mal e tentou voltar atrás.
Mas eu fiquei a pensar.
- A pensar? Não me digas que te queres casar?!
- Só disse que me deixou a pensar.
- Ah!
- E o que é que tu achas?
- Não acho nada. Nunca tinha pensado nisso. Diz-me uma coisa: não estamos bem assim?
- Estamos.
- Então?
- A verdade é que a pergunta da Alzira me pôs a pensar, comecei a imaginar como seria a nossa vida no dia-a-dia se tivéssemos um apartamento só para nós, permanente.
- Se tivermos dinheiro para pagar podemos ter um apartamento, sem a obrigação de passarmos pelo registo.
Agora vinha da rua uma gritaria de mulheres.
- São as velhas da frente. Pregam-se sempre ao fim da tarde. São as minhas vésperas privadas.
Rimo-nos descontraídos.
- E se deixarmos isso ao acaso? - perguntei?
- Queres atirar uma moeda ao ar?
- Isso também não. Uma coisa mais divertida. Para mudar de casa e para comprar uns móveis é preciso dinheiro, não é?
-É, mas não o temos. Sabes que mais vamos mas é investir na nossa felicidade, enquanto o capital se consome na sua própria fogueira da imbecilidade.
- Já te disse, devo ser antiquada.

Vitor Jorge

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

JORNALISMO

Entrei ontem num bar para comprar água. Para minha surpresa, estava ao meu lado o Augusto. Não o via há quarenta e um anos, quando era ainda um honesto colega de farmácia. Emigrou para a América, e desde então, nunca mais tinha sabido nada dele. Aproveitei para perguntar em que trabalhava.
Sou jornalista. E gosto, sabes? Dedico-me às generalidades, mas o que me entusiasma são os crimes violentos. O director do jornal, sabe que tenho essa preferência e sempre que há um crime desse género manda-me lá, e eu agradeço. Devias ver as minhas descrições fantásticas do assassinado, embora eu prefira quando são de uma assassinada, sobretudo quando a encontram em pêlo. Como deves calcular não escrevo assim, faço descrições muito correctas: <<A infeliz jovem encontrava-se totalmente sem roupa>>. O director diz que o meu estilo é o que melhor se adapta ao sangue e ao crime, e eu acho, modestamente, que ele tem razão. A gíria do Augusto, pensei eu, parecia uma caricatura do léxico dele próprio que usava por cá quando se alimentava de Sir Arthur Conan Doyle.
De repente, Augusto olhou o relógio e disse que já era tarde para si, que tinha de ir embora.
Tens comissão sobre os crimes sangrentos?
Felizmente, sim. Tenho um ordenado generoso, pagam-me o triplo para descrever um duplo crime passional, ou faça a cobertura de um seminário sobre triquinose. Sou mesmo bom nisto. E agora vou-me despachar, embarco dentro de meia hora e ainda hoje à chegada tenho a reconstituição do crime numa escola com mais de uma dúzia de jovens mortos. Fica com o meu cartão, para me ligares um dia destes a contar o que tens feito, porque hoje fizeste-me falar como um papagaio e tu estiveste calado como uma porta.
Já sem Augusto, aproximei-me do balcão, pedi uma genebra amarga e bebi lentamente, nunca tinha provado. Na verdade detestei-a, mas bebi heroicamente aquela porcaria. Precisava vomitar imediatamente.

Vitor Jorge

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O TEMPO

Nunca persiga o tempo. Tampouco permita a perseguição. Viva intensamente este tempo que é o seu. Participe activamente neste preciso alumbramento.

Vitor Jorge

AS INICIAIS

MEMÓRIAS DO PASSADO PRESENTE

AS INICIAIS

Certa tarde, encontrei num jardim das imediações desta Cidade da Horta gravadas com uma faca ou um canivete no tronco de um pinheiro, as letras <<L>> e <<D>>, dentro de um coração rudemente desenhado, e pus-me a conjecturar sobre aquelas iniciais e sobre o remoto casal a que se referiam. O traço parecia antigo, como se inumeráveis chuvas o tivessem lavado e voltado a lavar.
Era um jardim abandonado, e aquele edifício em ruínas tinha sido uma casa muito confortável de gente rica. Talvez as iniciais fossem dessa época. Ocorreu-me que o primeiro <<L>> se referia a um Luís e o segundo a uma Dulce. Decidi que teria sido um amor clandestino, ou pelo menos censurado, digamos que entre primos direitos, ou talvez o Luís fosse o filho mais novo da família e a Dulce uma serviçal adolescente e ingénua, que tinha acabado por engravidar e que por isso fora despedida, apesar do desespero de Luís, que certamente ainda não teria aprofundado a questão da existência de classes sociais. Também podia ser que Luís fosse um serviçal e Dulce a menina da casa, claro que nesse caso não teria ficado grávida, porque o serviçal saberia alguma coisa  (sobre métodos anticoncepcionais) e teria consciência das penalidades que o esperavam por suposta violação de uma menor de boas famílias.
Havia ainda a hipótese de a inicial repetida representar o cúmulo da solidão, uma espécie de espelho embaciado, ou seja, Luís mais Luís, ou Dulce mais Dulce, isto é, a marca de alguém que desejava companhia mas só se encontrava a si mesmo, ou a si mesma, e que criara uma fantasia para apagar o sofrimento com um prazer hedonista e, no entanto, tão angustiante como costumam ser os prazeres solitários. <<L>> poderia também significar Liberdade e <<D>> Democracia, ideia que excluí de imediato pela constante persistência do contraditório citadino, mas que deveria constar dos princípios de identidade.
A duplicação constituiria uma insistência, uma obseção, ou talvez nostalgia de uma origem contígua, de uma identidade paralela em quem confiar, ao ponto de pô-la dentro do mesmo coração, elíptica forma de designar um só mundo, talvez um só amor?
Como se pode ver, eu estava com uma indigestão de leituras românticas e também de simbologia humana. O primeiro caso era fruto do meu cocktail de romances, o segundo resultava das minhas conversas com um tal Filipe, que estava totalmente invadido pela psicanálise (o seu tio fora um verdadeiro tríptico: médico, psiquiatra e psicanalista em Lisboa) e que, inconformado com os símbolos mais ou menos popularizados por Freud e seus seguidores, acrescentava constantemente outros de sua lavra. Confesso que a insistência dele me aborrecia um pouco, mas algum sedimento me deixava e eu não fazia nada melhor do que aplicá-lo às desprevenidas iniciais do velho pinheiro.
Filipe tinha também outras aptidões. Por exemplo, sabia ler as linhas da mão e ler agoiros e presságios na espuma da cerveja.
Encontrámo-nos uma tarde num bar próximo, e como viu que eu estava a terminar a minha cerveja pediu-me o copo e, seguindo o preceito, rodou-o. Examinou atentamente a escassa espuma.
Não leves muito a sério a minha cervejomancia disse, sorrindo. Nem eu a levo a sério. Simplesmente sou atraído pelos enigmas, pelas adivinhações.
Fiquei mais um pouco a contemplar aquilo que para mim não significava nada.
Sabes o que vejo? Uma mulher e uma árvore.
Assumi calmamente o presságio, porque interpretei que, de qualquer forma, deveria tratar-se da Marina e do pinheiro.

Vitor Jorge

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

GENTE QUE PASSOU

GENTE QUE PASSOU

Até então eu tinha vivido mais ou menos confinado a esta cidade da Horta e talvez por isso gostasse bastante dos percursos pedestres pelas ruas da mesma. Nessas alturas, detinha-me um bom bocado numa esquina qualquer, empenhado exclusivamente em observar a passagem das pessoas. A pressa de uns e a serenidade de outros, tudo constituía para mim uma novidade, uma descoberta. À medida que iam passando pela minha solidão, anotava mentalmente as suas peculiaridades e obsessões. As mulheres seduzidas pelas montras e pelas últimas novidades da moda, paravam fascinadas, certamente retendo na memória cortes, cores, modelos, preços. Depois iam-se embora disparadas, porque estavam sempre atrasadas para chegar a qualquer sítio. Os homens, mais definidos ou obsecados, quando iam comprar alguma coisa, entravam directamente na loja ou na papelaria, perdendo a possibilidade de observar os expositores, em cuja oferta não desperdíçavam o seu tempo.
Abundavam também os estudantes, de ambos os sexos, especialmente nas imediações do antigo liceu. Normalmente circulavam em grupos, com os rapazes a assediar as raparigas, e estas, de braço dado para se sentirem mais fortes, devolviam-lhes os piropos colectivos e as piscadelas de olho individuais com rejeições irónicas e cochichos apócrifos. Os transeuntes adultos às vezes entreolhavam-se, incomodados com essa lição de proveitosa frivolidade, cada um solidário com o aborrecimento do outro e esperando não encontrar de repente um filho seu, ou uma filha, entre aquela trupe de gente incómoda, tão barulhenta quanto alegre.
No meu miradouro, numa esquina qualquer (geralmente escolhia a da rua Cônsul Dabney), fui conhecendo os detalhes e matrizes do comportamento humano, e essa visão panorâmica chegou a transformar-se, para a minha inexperiente  natureza, num exercício apaixonante. Nessa época, com doze anos de idade, eu lia bastantes livros. Já tinha abandonado, havia algum tempo, a leitura de De Amicis, Verne e Salgary, e então dedicava-me a estabelecer as diferenças mais elementares entre as personagens de Dostoievski, Dickens ou Victor Hugo. Durante algum tempo estive obsecado em fazer comparações imaginárias entre os mendigos da literatura e os da vida real, mas os pedintes não abundavam por estas paragens. Finalmente descobri um que não tinha uma perna, e certa tarde entretive-me a calcular quanto, aproximadamente, teria arrecadado nessas escassas horas. Comecei por multiplicar por dois, porque mendigava em dois turnos, e depois por trinta, para chegar ao rendimento mensal, e cheguei à surpreendente conclusão de que ganhava mais que o meu pai como funcionário público. Nessa mesma noite comentei isto com o meu pai e, para meu espanto, não morreu de inveja. Apenas observou:
A diferença substancial entre o teu mendigo e eu não está no que ganhamos diariamente ou por mês, mas sim no facto de que eu pelo menos tenho as minhas pernas, com varizes e joanetes, mas tenho-as. Parece-te pouco?
Não, não me parecia pouco. Mas o meu mendigo nem sequer me servia para ser comparado com os de Victor Hugo. Evidentemente éramos ainda um país fascista muito fechado, e pouco desenvolvido, e por cá nem sonhava-mos ainda com obras assombrosas, menos com uma Assembleia Legislativa Regional. Presumia que mais tarde nos iríamos desenvolver, para então gerarmos a nossa mendicidade vernácula.
Passei muitos fins-de-semana, lendo encostado às palmeiras da Praça do Infante que era o meu local preferido. O ar puro e salgado que subia da baía proporcionava-me uma estranha sensação de bem-estar. Aproveitava para respirar a plenos pulmões. Em alguns momentos punha o livro de lado e ficava imóvel, só a ouvir os pássaros, o trote das mulas puxando carroças, e as raras buzinas que dialogavam ali pertinho na avenida marginal. Às vezes, entrava num dos cafés próximos para tomar um lanche. Dava-me bem com o funcionário mais novo, um tal Daniel que se especializara em pregar partidas inocentes a alguns clientes. Havia, por exemplo, um militar septuagenário e reformado, surdo como uma porta, que residia numa residencial próxima. Levantava-se muito cedo e descia para tomar o pequeno almoço no café. O Daniel ia atendê-lo com um sorriso franco e sistematicamente o tenente coronel perguntava-lhe pelas novidades e previsão meteorologica do dia.
Bife panado com batatas fritas _ respondia o brincalhão Daniel.
O outro, muito compenetrado, anunciava:
Então vou buscar o cachecol.
E o surdo pedia:
Por favor, rapaz, quero um chá de limão.
O Daniel perguntava com ar muito sério:
Como é que o quer, senhor tenente? Com espargos ou ração militar?
Bem quentinho _ dizia o outro, agradecido, e dava-lhe uma boa gorjeta, que o Daniel aceitava de imediato sem remorso. Fui várias vezes testemunha desses diálogos estrambólicos e posso garantir que o desempenho dramático do Daniel era de uma perfeição verdadeiramente profissional. Por isso não fiquei surpreendido quando, um ano mais tarde, o vi integrar um grupo de teatro amador.

Pela nobreza da gente que passou. Em sua memória.

Vitor Jorge

Nota:
(Os Miseráveis expõe a flosofia política de Victor Hugo, retratando a desigualdade social e a miséria decorrente, e, por outro lado, o empreendedorismo e o trabalho
desempenhando uma função benéfica para o indivíduo e para a sociedade. Retrata também o conflito na relação com o Estado, seja pela ação arbitrária do policial ou pela atitude do revolucionário
obcecado pela justiça).

sábado, 19 de janeiro de 2019

O LEOPOLDO

O LEOPOLDO

A casa onde nasci tinha os seus códigos e mistérios. Por exemplo, eu reparava que às vezes, quando o meu pai se aproximava da minha mãe e começava a fazer-lhe festinhas furtivas, havia momentos que a minha mãe sorria, devolvia-lhe um beijo e fechavam-se os dois no quarto. Mas outras vezes, quando o meu pai começava com as suas meiguices, a minha mãe ficava séria e só lhe dizia:
Hoje não posso, meu velho. Chegou o Leopoldo.
Para mim, essa resposta era um enigma, porque eu tinha estado a manhã toda em casa e não tinha chegado ninguém : nem da família do Leopoldo, nem de nenhuma outra família. Além disso não conhecia ninguém com aquele nome. Só muitos anos mais tarde é que soube que Leopoldo era o nome do rei Belga, Leopoldo II, um dos reis mais sanguinários de todos os tempos, pelas atrocidades cometidas no ex-Congo Belga. Ou seja, a minha mãe estava a avisar o meu pai (em código, claro, devido à minha indiscreta presença) que estava com o período e, consequentemente, não estava disponível para o erotismo. Outro mistério era a porta de entrada para o rés-do-chão. Eu estava proibido de tentar abri-la; bem podiam ter poupado esta proibição, já que as "caves" me provocavam um medo irracional e nunca me propus abri-la.
Entre as mais belas recordações de Pontas Negras estão os meus despertares, de que normalmente se encarregavam os inquilinos da figueira. Quando a minha mãe me gritava da cozinha para que eu me levantasse e fosse tomar o pequeno almoço, já muito antes os pássaros se tinham encarregado de me acordar.
Alguns tinham perdido o medo, e até a prudência, entravam no quarto e aproximavam-se da minha cama, sabendo que eu sempre lhes reservava um pequeno almoço de migalhas. E havia uma visita adicional sobre a qual nunca falei à minha mãe: um rato minúsculo, um ratinho que, quando eu abria os olhos, estava quase sempre junto à minha cama, à espera de pedacinhos de queijo de cabra, sobras da dose que me correspondia na dieta especial para compensar o meu défice de proteínas.
É óbvio que o ratinho e eu tivemos nessa altura uma recarga proteica nada desprezível.
Hoje, sem pais, nem Leopoldo, e
como na vida tudo se altera e modifica, é o vizinho defronte com sofisticado e ensurdecedor equipamento de som instalado no seu carro-mota que me controla o despertar, e noite dentro, o merecido descanço.

Vitor Jorge