sexta-feira, 18 de outubro de 2019

AO REDOR DE MIM

AO REDOR DE MIM 

Esta gente toda que caminha comigo, ou está sentada às mesas dos cafés, nas esquinas e recantos, ou esses tipos que de repente se detém e olham para o vazio e depois continuam a caminhar e falam sozinhos e fazem gestos. O que será cada uma dessas vidas? Cada tipo caminha com o seu mundo de problemas, com as suas dívidas, as suas masturbações, os seus rancores, as suas nostalgias, as coisas que querem ser e essa pouca coisa que são. Penso e repenso, e ando sempre ao redor das milhares de imagens deste mundo quase indecifrável. Assim como eu giro ao redor da universalidade e creio que o mundo começa e acaba em mim, que tudo existe em função das minhas dúvidas, assim também cada um desses pobres diabos crê que o seu drama é o Grande Drama, quando na realidade a ninguém importa um chavo, assim na Terra como no Céu. Por fim, o carro. Que felizardo ele é. Todos os seus problemas são solucionados pelo mecânico. Mas quando a mim me falta um sentimento, um pistão, digamos, ou as minhas válvulas de escape estão gastas, ou a nostalgia, o sistema de ignição, digamos, tem a faísca atrasada, não há mecânico que possa concertar-me. O calor humano, a dignidade, operam milagres na incerteza cotidiana pela luta de um mundo mais igualitário e fraterno.

VitorJorge

domingo, 1 de setembro de 2019

Sumir ou somar-se

Sumir ou somar-se? Apago os outros ou chamo-os?
A solidão é uma fraude. Vou comer o meu próprio vómito, como o camelo? Que risco corre o masturbador? Quando muito o de arranjar uma entorse no pulso.
A realidade, os outros: alegria e perigo. Chamo os touros, aguento-lhes a investida. Eu sei que aqueles cornos ferozes podem dar-me cabo da femoral.
Converso sobre estas coisas, em longas noites, com amigos que já partiram. E em longas cartas (ainda as manuscrevo) de profundos repúdios endereçadas aos assassinos de ideias, da cultura do silêncio, da multiplicação da impotência e da sementeira do medo.

Vitor Jorge

HORTA PRAÇA DO INFANTE (memórias)

HORTA, PRAÇA DO INFANTE
(memórias)

Juntei lenha, e água da bica.
Prove, mestre. Está no ponto.
Hmm.
A sério que gosta?
Está uma maravilha, mano.
Conseguimos algumas linguiças do Pico muito saborosas, alguns polvos, mesmo junto à muralha. Valia a pena reter na boca o paladar delicioso. Depois passamos para o assado cortando pequenos pedaços na brasa, e comendo-os aos poucos, como deve ser. Engasgamo-nos um pouco, mas de riso. Nem deixámos o vinho respirar, duas garrafas de vinho de "cheiro tinto", saboreamo-lo e sentimo-lo a escorregar, tíbio, expesso, pelo estômago e pelas veias.
Comemos, bebe-mos até não restar um pedacito no churrasco. Mestre Feijó agarra o último bocado com a ponta da navalha. Olho para ele, olho-o com olhos de cachorro abandonado e penso: "Vai comover-se", mas ele engole-o impávido.
Depois deitamo-nos na relva, com o sol na cara e a Ilha inteira para nós. Fumamos. Não havia mosquitos.
A brisa fazia assobiar as copas das palmeiras. De vez em quando ouvimos ali pertinho um chapinhar de remos, e sonoras gargalhadas de crianças brincando nos baixios com a baixa-mar, depois adormeci e sonhei. Vinha-mos na lancha Espalamaca, Madalena Horta. Estáva-mos sentados lado a lado no comando à conversa. Desse lado não estava mais ninguém. Os restantes passageiros estavam todos juntos nos bancos da popa, distantes de nós. Não eram passageiros comuns. Membros do governo regional, e um séquito enorme de engenheiros, e outros mediadores do futuro.
Nisto olhei para eles e achei-os estranhos. Estavam imóveis e mudos e eram todos exactamente iguais. Disse a mestre Feijó. Espere, e fui até à popa. Toquei num dos passageiros e, ploc, ele caiu no convés. Ao cair, soltou-se-lhe a cabeça de gesso. Gritei para mestre Feijó: atire-se, atire-se, e eu também mergulhei. Nadámos debaixo da água. Quando vim à tona, vi-o. Tornámos a mergulhar e continuamos a nadar desesperadamente. Estávamos muito longe quando a lancha voou em pedaços. Eu senti a explosão e vim à tona: vi o fumo e as chamas. Mestre Feijó estava a meu lado. Abracei a sua memória e acordei, lavado em lágrimas.

Vitor Jorge

Magia de um olhar

Atravessando o atalho exíguo, chego à beira do mar, por todos os lados.
Esta é uma manhã de Verão de luz limpa. Corre uma brisa suave. Da chaminé da casa de pedra, o fumo solta-se e ondula. Na água navegam golfinhos. Uma vela branca desliza pelo horizonte.
O meu corpo tem, esta manhã, o mesmo ritmo da brisa, do fumo, dos golfinhos e da vela, que a sós, sinto e vejo.

Plano de extermínio (verde)

Plano de extermínio: destruir a relva, arrancá-la pela raiz até à última planta ainda viva, cobrir a terra com betão, pedra, alcatrão.
Depois, matar a memória da erva. Para colonizar as consciências, suprimi-las; para as suprimir, esvaziá-las de passado. Aniquilar qualquer testemunho de que na região houve mais do que silêncio cárceres e campas.
É proibido recordar.

Vítor Jorge

terça-feira, 13 de agosto de 2019

ALEGORIA DO FANTÁSTICO

ALEGORIA DO FANTÁSTICO

Finou-se hoje mais uma edição da Semana do Mar 2019.
Estão de parabéns a comissão de festas, e presidente da Edilidade Faialense pela dedicação a este evento maior deste pequeno burgo. De facto, a Semana é composta de múltiplas vertentes lúdicas, no mar e em terra nem sempre a contento do povo local e de quem nos visita. Festa é festa, e cada qual guardou da mesma os maiores proventos possíveis na diversidade proposta.
No mar, considere-se uma aposta razoável, em terra, muitas contradições, mais do mesmo mais. Louvável a tentativa de erradicação dos plásticos poluentes, o cuidado atempado das recolhas do lixo dos contentores públicos e respectiva desinfeção (apenas durante a festa), limpeza do recinto e áreas envolventes, (excepto os vómitos e vasilhame da consequência).
Insolúveis prevalecem os suplícios do trânsito automóvel, a ocupação da avenida marginal, o ruído infernal das tendas de diversão noturnas, uma fórmula contra natura de poluição que o edil não considera. Assim, fica anulada a tentativa anti poluta que com tanto alarde se tentou fazer passar, em vão.
Em maré de poluição fica a nódoa da Praia de Porto Pim, que o mar não lava, porque a fonte permanece activa. Esteve muito bem o edil naquilo que melhor sabe fazer: discursar, pese embora alguma gaguez em diversas circunstâncias, o óbvio. A arte politiqueira disse presente nos dez dias festivos. Promessas, e para o que estas não são capazes de cumprir, o apelo à esperança das gerações futuras, para esta, nada de novo.
Ampliação do aeroporto, construção do novo porto, saneamento básico, áreas pedonais, reparação de vias e passeios degradados, um ror de necessidades básicas fundamentais ao desenvolvimento desta ilha. "Não há dinheiro", insistem os velhos do Restelo da orde PS, enquanto isso, ardem milhões em obras puramente eleitoralistas que não trazem tranquilidade menos bem-estar a este povo que persiste em lhes estender a passerelle.
No prosseguimento das obras da "frente mar" olvidou-se algo fantástico: a ligação das duas baías através da Rua Nova, a aquisição de gôndolas, e reduzir o desemprego com o pessoal a cantar o sole mio, isto se os "olheiros" da metereologia forem favoráveis.
O progresso e felicidade de qualquer povo passa sempre pela solução das suas necessidades básicas e prioritárias, pela boa vontade e compromisso concreto, nunca pela fantasia partidária em benefício degradante dos próprios.
Festejar sempre, com a coerência e propósito de servir o eleitorado. Esta estratégia vigente está condenada a uma mera alegoria do fantástico.

Vitor Jorge

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O MELHOR VESTIDO DE NOIVA É A PELE

SINTESE DE RESULTADOS OFICIAIS FORNECIDOS PELA REGIONAL DIREÇÃO DOS ASSUNTOS DO MAR

"1-Praia de Porto Pim, no Faial, reabre quarta-feira, 31 de julho, à prática balnear, depois de ter estado interdita a banhos devido a um fenómeno tópico e espacialmente restrito de contaminação por bactérias fecais.

2- A Direção Regional dos Assuntos do Mar (DRAM), na sequência de um reporte informal de que várias crianças teriam tido alguns problemas de pele, embora sem gravidade, após terem frequentado a Praia de Porto Pim, contratou o Instituto Ricardo Jorge para proceder à recolha de amostras de areia em diversos locais da praia, sendo que os resultados preliminares indicaram a presença de contaminação bacteriológica em algumas zonas do areal.

3- O técnico especialista do Instituto Ricardo Jorge recolheu uma amostra de areia junto ao paredão sul da praia e outra amostra, composta em quatro áreas, ao longo da praia.

4- Refira-se que, por lei, não é obrigatório fazerem-se análises de areia das zonas balneares.

5- Os resultados das análises indicaram, sem margem para dúvida, a existência de um foco de contaminação fecal, junto ao paredão da praia.

6- Perante esta situação, a DRAM convocou as autoridades competentes, nomeadamente a Delegada de Saúde Concelhia da Ilha do Faial, a Polícia Marítima e o Parque Natural da Ilha do Faial, bem como a Câmara Municipal da Horta, para ser desenhado um plano de ação para mitigar a contaminação por bactérias fecais (Escherichia coli e Enterococos intestinais).

7- Paralelamente, a DRAM intensificou também a monitorização regular daquela água balnear, em especial na proximidade do foco de contaminação, tendo-se verificado que se encontrava em boas condições para banhos.

8 - Por outro lado, o Parque Natural da Ilha do Faial desenvolveu todos os esforços para identificar e conter a origem da contaminação, tendo-se concluído que se devia a uma deficiência de uma caixa de passagem do sistema de fossas do bar da Fábrica da Baleia, que foi imediatamente reparada, através da sua impermeabilização.

9- A interdição da Praia de Porto Pim revela que o sistema de monitorização das zonas balneares dos Açores é eficaz, permitindo que a sua utilização seja feita em segurança.

10- Refira-se ainda que o processo entre a recolha das amostras, a sua análise e a obtenção de resultados leva o seu tempo, tendo sido disponibilizada a informação possível, de modo a evitar especulações e interpretações erróneas."

(Na minha nota anterior "DEIXA ANDAR QUE LEVA AZEITE", fica infelizmente provada a minha teoria, acrescida da razão  que me assiste.)

O MELHOR VESTIDO DE NOIVA É A PELE

Persigo a voz inimiga que me ditou a origem de estar triste com esta situação de viver numa região onde reina o inverosímil. Às vezes, dá-me para sentir que a alegria é um delito de alta traição, e que sou culpado do privilégio de continuar vivo e livre.
Nessa altura, faz-me bem recordar o saudoso e insigne Dr. Luís Decq Mota ao verbalizar diante das ruínas provocadas pelo vulcão dos Capelinhos :《As cinzas queriam fazer-nos desaparecer. Mas não  conseguiram, porque estamos vivos e isso é o principal》. E penso que o Dr. tinha razão. Estar-mos vivos: uma pequena vitória. Estar-mos vivos, ou seja: capazes de alegria, apesar dos adeuses para outras paragens seja o testemunho de uma outra região e autonomia possíveis, quanto desejáveis.
Aos Açores, tarefa por fazer, não os vamos continuar a erigir com tijolos de merda .
A alegria requer mais coragem que a mágoa.
À mágoa, ao caciquismo local e regional, ao fim e ao cabo estamos habituados, mudos e quedos, na nossa tradicional antropologia da vacuidade. Está visto que se pode proibir a água, a sede não.

Vitor Jorge