terça-feira, 12 de novembro de 2019

SÍMBOLOS DE UMA VIDA

SÍMBOLOS DE UMA VIDA

A mancha que tem na pele, a meio caminho do estreito pescoço, é inalterável, não há creme que a tape. Não é grande, não ofende a vista, mas nota-se. É o fígado, diziam-lhe os médicos desde há vários anos com monótona perseverança, mas ela sabe que essa manchinha lhe apareceu aos vinte e um anos exactamente no mês em que se tornou mulher, ou seja, uma época em que ainda não tinha fígado nem coração nem tornozelos nem gengivas, porque uma pessoa vai adquirindo consciência dos seus órgãos à medida que estes começam a doer, e naquele tempo a única coisa que lhe doía era ocasionalmente, o baço, quando corria exageradamente na praia ou atalhos, ou ajudava a puxar as pesadas redes a abarrotar de sardinha na praia de Porto Pim. Hoje, mãe de três filhos, alquebrada pela idade, a manchinha continua visível, sem alterações, uma rosa não tatuada de indescritível beleza.

Vitor Jorge

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

MEDITAÇÃO

Nada se move aqui. Não há ruídos. As cortinas cerradas deixam passar uma luz débil. Estará nublado? Melhor. Hoje preciso, como de pão, de um dia nublado. Esta avalancha de silêncio é insuportável. Melhor dizendo, desde há quarenta anos que tudo me comove. Uma única alegria cálida acaricia a minha mente, mas que bom saber que alguém teve tomates suficientes para não se vender.

Vitor Jorge

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

AO REDOR DE MIM

AO REDOR DE MIM 

Esta gente toda que caminha comigo, ou está sentada às mesas dos cafés, nas esquinas e recantos, ou esses tipos que de repente se detém e olham para o vazio e depois continuam a caminhar e falam sozinhos e fazem gestos. O que será cada uma dessas vidas? Cada tipo caminha com o seu mundo de problemas, com as suas dívidas, as suas masturbações, os seus rancores, as suas nostalgias, as coisas que querem ser e essa pouca coisa que são. Penso e repenso, e ando sempre ao redor das milhares de imagens deste mundo quase indecifrável. Assim como eu giro ao redor da universalidade e creio que o mundo começa e acaba em mim, que tudo existe em função das minhas dúvidas, assim também cada um desses pobres diabos crê que o seu drama é o Grande Drama, quando na realidade a ninguém importa um chavo, assim na Terra como no Céu. Por fim, o carro. Que felizardo ele é. Todos os seus problemas são solucionados pelo mecânico. Mas quando a mim me falta um sentimento, um pistão, digamos, ou as minhas válvulas de escape estão gastas, ou a nostalgia, o sistema de ignição, digamos, tem a faísca atrasada, não há mecânico que possa concertar-me. O calor humano, a dignidade, operam milagres na incerteza cotidiana pela luta de um mundo mais igualitário e fraterno.

VitorJorge

domingo, 1 de setembro de 2019

Sumir ou somar-se

Sumir ou somar-se? Apago os outros ou chamo-os?
A solidão é uma fraude. Vou comer o meu próprio vómito, como o camelo? Que risco corre o masturbador? Quando muito o de arranjar uma entorse no pulso.
A realidade, os outros: alegria e perigo. Chamo os touros, aguento-lhes a investida. Eu sei que aqueles cornos ferozes podem dar-me cabo da femoral.
Converso sobre estas coisas, em longas noites, com amigos que já partiram. E em longas cartas (ainda as manuscrevo) de profundos repúdios endereçadas aos assassinos de ideias, da cultura do silêncio, da multiplicação da impotência e da sementeira do medo.

Vitor Jorge

HORTA PRAÇA DO INFANTE (memórias)

HORTA, PRAÇA DO INFANTE
(memórias)

Juntei lenha, e água da bica.
Prove, mestre. Está no ponto.
Hmm.
A sério que gosta?
Está uma maravilha, mano.
Conseguimos algumas linguiças do Pico muito saborosas, alguns polvos, mesmo junto à muralha. Valia a pena reter na boca o paladar delicioso. Depois passamos para o assado cortando pequenos pedaços na brasa, e comendo-os aos poucos, como deve ser. Engasgamo-nos um pouco, mas de riso. Nem deixámos o vinho respirar, duas garrafas de vinho de "cheiro tinto", saboreamo-lo e sentimo-lo a escorregar, tíbio, expesso, pelo estômago e pelas veias.
Comemos, bebe-mos até não restar um pedacito no churrasco. Mestre Feijó agarra o último bocado com a ponta da navalha. Olho para ele, olho-o com olhos de cachorro abandonado e penso: "Vai comover-se", mas ele engole-o impávido.
Depois deitamo-nos na relva, com o sol na cara e a Ilha inteira para nós. Fumamos. Não havia mosquitos.
A brisa fazia assobiar as copas das palmeiras. De vez em quando ouvimos ali pertinho um chapinhar de remos, e sonoras gargalhadas de crianças brincando nos baixios com a baixa-mar, depois adormeci e sonhei. Vinha-mos na lancha Espalamaca, Madalena Horta. Estáva-mos sentados lado a lado no comando à conversa. Desse lado não estava mais ninguém. Os restantes passageiros estavam todos juntos nos bancos da popa, distantes de nós. Não eram passageiros comuns. Membros do governo regional, e um séquito enorme de engenheiros, e outros mediadores do futuro.
Nisto olhei para eles e achei-os estranhos. Estavam imóveis e mudos e eram todos exactamente iguais. Disse a mestre Feijó. Espere, e fui até à popa. Toquei num dos passageiros e, ploc, ele caiu no convés. Ao cair, soltou-se-lhe a cabeça de gesso. Gritei para mestre Feijó: atire-se, atire-se, e eu também mergulhei. Nadámos debaixo da água. Quando vim à tona, vi-o. Tornámos a mergulhar e continuamos a nadar desesperadamente. Estávamos muito longe quando a lancha voou em pedaços. Eu senti a explosão e vim à tona: vi o fumo e as chamas. Mestre Feijó estava a meu lado. Abracei a sua memória e acordei, lavado em lágrimas.

Vitor Jorge

Magia de um olhar

Atravessando o atalho exíguo, chego à beira do mar, por todos os lados.
Esta é uma manhã de Verão de luz limpa. Corre uma brisa suave. Da chaminé da casa de pedra, o fumo solta-se e ondula. Na água navegam golfinhos. Uma vela branca desliza pelo horizonte.
O meu corpo tem, esta manhã, o mesmo ritmo da brisa, do fumo, dos golfinhos e da vela, que a sós, sinto e vejo.

Plano de extermínio (verde)

Plano de extermínio: destruir a relva, arrancá-la pela raiz até à última planta ainda viva, cobrir a terra com betão, pedra, alcatrão.
Depois, matar a memória da erva. Para colonizar as consciências, suprimi-las; para as suprimir, esvaziá-las de passado. Aniquilar qualquer testemunho de que na região houve mais do que silêncio cárceres e campas.
É proibido recordar.

Vítor Jorge